Poucas frases geram tanta apreensão no consultório quanto “vamos precisar puncionar esse nódulo”. A palavra “punção” evoca agulha grande, procedimento invasivo, internação — e, no fundo, o medo do que ela pode revelar.
A realidade é bem mais simples. A PAAF — punção aspirativa por agulha fina — é um exame ambulatorial que dura poucos minutos, usa uma agulha mais fina do que a de coleta de sangue e, na imensa maioria das vezes, dispensa até anestesia. E é ela que responde à pergunta que o ultrassom sozinho não consegue responder: este nódulo é benigno ou não?
Neste texto eu explico quando a punção é indicada, como o exame acontece na prática e — a parte que mais gera dúvida — o que significa cada categoria do laudo, o chamado Sistema Bethesda.

O que é a PAAF
A punção aspirativa por agulha fina é um exame de citologia: em vez de retirar um pedaço de tecido (como faz uma biópsia cirúrgica), ela coleta um pequeno número de células do nódulo, que são espalhadas em lâminas e analisadas no microscópio por um patologista.
É essa diferença que explica por que a PAAF é tão bem tolerada. As agulhas usadas são mais finas que as de exame de sangue e o material colhido é medido em células.
Hoje o exame é feito guiado por ultrassom, com o médico visualizando a agulha em tempo real. Isso não é um detalhe: a orientação ecográfica garante que a coleta venha exatamente da região suspeita do nódulo. Isso aumenta a quantidade de material adequado e reduz o número de exames inconclusivos.
Quando a punção é indicada
Nem todo nódulo precisa ser puncionado — e essa é uma das confusões mais comuns.
A indicação nasce da combinação de duas informações: as características do nódulo no ultrassom e o seu tamanho. Sistemas de classificação como o ACR TI-RADS organizam os achados do ultrassom (composição, ecogenicidade, formato, contornos e presença de microcalcificações) em categorias de risco, de TR1 a TR5. Quanto maior a suspeita, menor o tamanho a partir do qual a punção passa a ser recomendada.
Na prática, isso significa que:
- Um nódulo maior que 1,0cm, mas com aspecto totalmente benigno, pode não ter indicação de punção — apenas acompanhamento;
- Um nódulo pequeno, porém com características suspeitas, pode ter indicação clara de punção;
- Nódulos muito pequenos, abaixo de 1 cm, em geral não são puncionados de rotina, salvo situações específicas, como posição desfavorável do nódulo na tireoide, gânglios cervicais alterados, invasão de estruturas vizinhas ou história pessoal e familiar de risco.
Também entram na decisão os sinais clínicos de alerta: crescimento rápido, rouquidão persistente, nódulo fixo e endurecido, ínguas no pescoço e antecedente de irradiação cervical especialmente na infância.
Como o exame é feito, passo a passo
Antes: não é necessário jejum, e o paciente pode manter suas medicações habituais. Mesmo o uso de anticoagulantes e antiagregantes plaquetários, em geral, não impede a realização do exame — mas essa informação precisa ser dada ao médico com antecedência, para que ele ajuste a técnica caso seja necessário. Nunca suspenda medicação por conta própria.
Durante: você fica deitado, com um travesseiro sob os ombros para estender levemente o pescoço. A pele é higienizada, e o médico posiciona o transdutor do ultrassom para localizar o nódulo. A agulha é introduzida e movimentada dentro da lesão por poucos segundos, coletando o material. Costumam ser feitas de duas a seis coletas (“passadas”), o que aumenta a chance de uma amostra representativa.
O uso de anestesia local é opcional: estudos mostram que o desconforto relatado é semelhante com ou sem anestésico, já que a picada da anestesia é comparável à da própria punção. Muitos pacientes descrevem a sensação como parecida com uma coleta de sangue no pescoço — desconfortável, mas breve.
Duração: o procedimento em si leva poucos minutos. Somando preparo e observação, a visita raramente ultrapassa meia hora.
Depois: faz-se compressão local por alguns minutos. Você pode voltar à rotina no mesmo dia, evitando apenas esforço físico intenso nas primeiras horas. Pode haver leve dor no local e, ocasionalmente, uma pequena mancha roxa (equimose), que desaparece sozinha.
Riscos: a PAAF é considerada um procedimento muito seguro. Complicações relevantes são raras; hematomas de maior porte são incomuns, e mesmo em pacientes anticoagulados a taxa de sangramento descrita na literatura é inferior a 1%.
Resultado: costuma ficar pronto em alguns dias, a depender do laboratório.
O que o laudo significa: o Sistema Bethesda
O resultado da punção não vem como um simples “benigno” ou “maligno”. Ele é organizado pelo Sistema Bethesda para Relato de Citopatologia Tireoidiana, atualizado em sua terceira edição, publicada em 2023, alinhada à classificação de tumores da OMS de 2022. São seis categorias, cada uma com um risco estimado de malignidade e uma conduta correspondente:
| Categoria | O que significa | Risco aproximado | Conduta habitual |
| I — Não diagnóstica | Material insuficiente para análise | ~13% | Repetir a punção guiada por ultrassom |
| II — Benigna | Sem sinais de malignidade | ~4% | Acompanhamento clínico e ecográfico |
| III — Atipia de significado indeterminado | Alterações que não permitem definição | ~22% | Repetir PAAF, teste molecular, lobectomia diagnóstica ou vigilância |
| IV — Neoplasia folicular | Padrão que a citologia não distingue de câncer | ~30% | Teste molecular ou lobectomia diagnóstica |
| V — Suspeita de malignidade | Fortemente sugestiva, mas não conclusiva | ~74% | Cirurgia (lobectomia ou tireoidectomia) |
| VI — Maligna | Diagnóstico de câncer estabelecido | ~97% | Cirurgia, com extensão definida caso a caso |
Vale destacar duas leituras importantes desta tabela.
A primeira: um Bethesda II não é “sorte”, é a regra. A maior parte das punções resulta em citologia benigna, e nesses casos a conduta é simplesmente manter o acompanhamento.
A segunda: as categorias III e IV são “indeterminadas” — não porque o exame falhou, mas porque existe um grupo de lesões que a citologia, por natureza, não consegue classificar. Historicamente, esses pacientes iam para a cirurgia apenas para obter o diagnóstico, e a maioria acabava com um resultado benigno. É exatamente aí que os testes moleculares (que analisam alterações genéticas no material já coletado) vêm mudando a prática, ajudando a identificar quem realmente precisa operar e poupando cirurgias desnecessárias em uma parcela relevante dos casos.
Quando a punção não conclui
Cerca de uma em cada dez punções resulta em material insuficiente (Bethesda I) — mais frequente em nódulos císticos, muito vascularizados ou de difícil acesso. Isso não significa que algo deu errado nem que o nódulo é mais perigoso.
A conduta é repetir o exame guiado por ultrassom após um intervalo, e mais da metade dessas repunções chega a um resultado conclusivo.
Por que isso importa
A punção da tireoide é, provavelmente, o exame com a melhor relação entre desconforto e informação em toda a nossa especialidade: são poucos minutos para ser feito, risco mínimo, e uma resposta que define se você vai apenas repetir ultrassons ao longo dos anos ou se precisará de um tratamento cirúrgico.
E, com a mesma importância, ela evita o caminho oposto — operar nódulos que jamais causariam problema. Cada categoria do Bethesda tem uma conduta bem estabelecida em diretrizes internacionais; o papel do especialista é aplicar esse mapa ao seu caso concreto, considerando o ultrassom, o exame do pescoço, a sua história e o que faz sentido para você.
Se você recebeu um resultado de punção e não entendeu o que ele quer dizer, essa dúvida tem resposta clara — e ela merece ser explicada com calma.
Agende sua avaliação
Se o seu médico indicou uma punção de tireoide, ou se você já tem um resultado de PAAF em mãos e quer entendê-lo com segurança, procure uma avaliação especializada. O Dr. Lauro Matos, especialista em cirurgia de cabeça e pescoço, avalia a indicação da punção, interpreta o laudo de Bethesda no contexto do seu ultrassom e define, junto com você, a melhor conduta — do acompanhamento à cirurgia, quando necessária.
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Referências
- Ali SZ, Baloch ZW, Cochand-Priollet B, Schmitt FC, Vielh P, VanderLaan PA. The 2023 Bethesda System for Reporting Thyroid Cytopathology (3ª edição). Thyroid, 2023.
- American Thyroid Association (ATA). 2025 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid, 2025.
- American College of Radiology (ACR). ACR Thyroid Imaging, Reporting and Data System (TI-RADS) — estratificação de risco e limiares de indicação de punção. ACR, atualização vigente.
- Moorthy R. et al. Evaluation and Management of Thyroid Nodules: A Joint Consensus Statement From the British Thyroid Association (BTA), British Association of Endocrine and Thyroid Surgeons (BAETS) and Collaborating Bodies. Clinical Endocrinology, 2025/2026.
- Fine-Needle Aspiration of the Thyroid Gland. Endotext / NCBI Bookshelf — revisão sobre técnica, segurança e amostras não diagnósticas, atualização vigente.
- Korean Society of Thyroid Radiology. Consensus Statement on Ultrasound-Guided Fine Needle Aspiration of Thyroid Nodules.
- World Health Organization (WHO). Classification of Tumours: Endocrine and Neuroendocrine Tumours (5ª edição), 2022.
- Literatura recente sobre desempenho de testes moleculares em nódulos indeterminados (Bethesda III e IV), incluindo revisões e metanálises publicadas entre 2024 e 2026.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento devem ser sempre individualizados.





